Quem chega na loja procurando cabo quase sempre faz a mesma pergunta: qual é o mais forte? É a pergunta errada. O cabo mais grosso da prateleira não é o melhor cabo para o seu barco, e em alguns casos ele é pior que um mais fino. A pergunta certa é outra: que carga essa amarração realmente vai ver?

Carga de ruptura não é carga de trabalho

Todo cabo tem uma carga de ruptura: o ponto em que ele arrebenta num teste de tração. É o número que aparece na ficha técnica. Só que ninguém dimensiona amarração para trabalhar perto da ruptura — seria como calcular um freio para funcionar só no limite.

Na prática se trabalha com uma fração dessa carga, justamente porque a amarração de um barco não é uma tração constante e limpa. É puxão. Rajada, marola, esteira de outra embarcação passando, maré virando. Cada um desses eventos gera um pico muito acima do peso parado do barco. Um cabo dimensionado no limite arrebenta no primeiro pico, e sempre à noite, sempre com vento.

Por isso a conta que importa não é o peso do barco. É o peso do barco mais tudo que empurra ele: vento na superfície exposta, correnteza no casco, e o efeito de repetição desses puxões ao longo de meses.

As bitolas e o que cada uma aguenta

Estes são os números de carga de ruptura dos cabos torcidos de 3 pernas em poliéster que trabalhamos. Servem para você ter noção da escala entre uma bitola e a seguinte:

BitolaCarga de ruptura
10 mm1.430 kgf
14 mm2.390 kgf
16 mm3.162 kgf
18 mm5.700 kgf
25 mm8.158 kgf
38 mm22.000 a 28.000 kgf

Repare que o salto não é proporcional ao diâmetro. Entre 10 mm e 14 mm — 4 mm de diferença — a carga sobe cerca de 67%. Entre 16 mm e 18 mm, só 2 mm a mais, ela quase dobra. É por isso que subir uma bitola resolve muito mais do que a diferença visual sugere.

Como se orientar na escolha

Não existe uma bitola única correta para um comprimento de barco, porque dois barcos do mesmo tamanho podem ter deslocamentos bem diferentes. Mas como orientação de partida, o que se vê na prática:

  • Lanchas pequenas e embarcações leves: a faixa de 10 a 12 mm costuma dar conta da amarração do dia a dia. O cabo de 10 mm é o mais usado nessa faixa.
  • Barcos de porte médio: 14 a 16 mm é onde a maioria se resolve. O 14 mm é o carro-chefe dessa faixa, com 2.390 kgf de ruptura.
  • Embarcações pesadas e uso mais exigente: a partir de 18 mm, subindo para 25 mm quando entra fundeio de poita ou amarração permanente.
  • Poitas, píeres e reboque pesado: aí já é território do 38 mm, com carga de ruptura acima de 22 toneladas.

Se você navega em local exposto a vento forte, deixa o barco atracado por longos períodos ou pega esteira pesada de outras embarcações, subir uma bitola em relação a essa orientação é decisão barata e sensata.

Por que cabo grosso demais também é erro

Esta é a parte que surpreende. Existe um custo real em exagerar na bitola:

Ele não absorve o puxão. Parte do trabalho de um cabo de amarração é esticar um pouco e amortecer o solavanco. Um cabo superdimensionado é rígido demais para isso, e a energia que ele não absorve vai para o cunho, para o olhal, para a estrutura do barco. Já vi cunho arrancado do convés com o cabo intacto ao lado.

Ele não passa no ferro. Cabo grosso demais não entra no cunho, não dá volta decente no cabeço e não fecha nó com folga. Uma amarração que dá trabalho para fazer é uma amarração que você vai fazer mal na pressa.

Ele custa mais e dura o mesmo. O metro de 25 mm custa múltiplas vezes o de 14 mm. Se o de 14 mm resolve com margem, o dinheiro a mais não comprou segurança nenhuma.

Amarração, fundeio e reboque são serviços diferentes

O mesmo rolo de cabo não atende bem as três funções.

Amarração e espia pedem cabo que estica um pouco, para amortecer. É onde o poliéster torcido de 3 pernas trabalha melhor.

Fundeio pede comprimento antes de pedir grossura. A regra que realmente conta aqui é o filame: soltar cabo suficiente para que a tração no fundo seja horizontal e não vertical. Cabo curto e grosso segura muito pior que cabo mais fino e longo, porque a âncora precisa de ângulo baixo para cravar.

Reboque é a situação de maior pico de carga de todas, e a que menos perdoa. Aqui não é hora de economizar bitola.

Poliéster e não polipropileno

Vale entender o material. O poliéster desses cabos não flutua e tem baixíssima absorção de água — ele não incha, não fica pesado e não perde carga quando molha. Tem proteção UV, resiste à maresia e suporta até 160°C antes de começar a comprometer a estrutura.

O polipropileno, mais barato, flutua — o que é vantagem só em situação específica, como cabo de resgate ou de esqui. Para amarração ele se degrada bem mais rápido no sol e perde resistência sem avisar.

Quantos e de que tamanho

Um jogo de amarração decente tem mais de um cabo. O básico é ter proa, popa e pelo menos um través de cada bordo, o que já são quatro peças. Como referência de comprimento, cabos de amarração costumam ser cortados na ordem de duas terças partes a um comprimento inteiro do barco, e a espia de fundeio bem mais longa que isso.

Como os cabos são vendidos por metro, vale medir o que você usa hoje antes de pedir, e comprar já pensando no cabo reserva. Cabo sobressalente a bordo resolve problema que aparece longe do píer.

Quando trocar

Cabo de amarração não avisa que vai arrebentar, mas dá sinais. Olhe a região que atrita no cunho e no guia: é sempre ali que ele morre primeiro. Fibra desfiada, achatamento no ponto de dobra, endurecimento e perda de flexibilidade são motivo para trocar. Cabo que ficou rígido a ponto de não fazer curva já perdeu a função de amortecer.

Se ficou dúvida sobre qual bitola serve para o seu caso, é melhor perguntar antes de comprar. Nos diga o tipo e o porte da embarcação e onde ela fica atracada, que a gente indica a faixa certa.